Um poema em contraponto. (Por Amanda França).
é triste quando a presença já não basta
que o silêncio incomode
quando o olhar procura o vazio
em noites que já foram tão curtas
dias em que fiz meu o seu caminho
cada vez que me acusas de esmigalhar o futuro
com meu passado sofrido,
esqueces que no presente
há uma vida em suspenso.
esperando…
esperando…
a boca trava
o corpo mente
o cérebro disfarça
o coração não entende.
cuando tus palabras se acercan como flechas
no hay defensa posible
me quedo sola, inerte
saludando un poco mas a la muerte.
“A modéstia é para os fracos”.
O mantra anárquico e completo em traquinagens da alma, parece destoar do clima pretensamente pesado da canção O Amor é Fudido, terceiro single do mais recente trabalho da banda Krias de Kafka.
O EP Sessões Desenganadas foi gravado na metade de 2010 no Estúdio Submarino, na capital paulista. A cidade morada de liras e vanguardas ecoadas através do carbono poluente, tem na gênese desse registro uma completa alquimia com a equação nada modesta dos projetos envolvendo a banda de Santo André.
Muito mais longe do pedantismo e milhas próximas nas ações de guerrilha em grupo, aquelas que redobram a esperança de que o cenário no rock nacional pode mudar, a banda mostra que os chamados hiatos apenas acontecem dentro dos encéfalos que acompanham corrompidas ideologias midiáticas do mainstream. Como Walter Franco e seu “sumiço” de dezenove anos, as Krias jamais pararam desde o nascimento no ano de 2004.
Cantarolavam artérias lisérgicas abertas e construiram sua formação através de várias mudanças. Maturação de genes requer mais tempo do que podemos imaginar, e assim em 2009 a formação atual concatenada iniciou a gravação. Porém os planos não apenas poderiam transparecer uma vontade única e megalômanÃaca, por isso as sessões onde nasceram as claves desenganadas possuiram muito mais do que apenas canções. Idéias foram criadas e laços consumindo o pleonasmo da cena em Santo André amalgamaram-se.
Amigos, compadres.
Comparsas ventriculares no crime. A criação do Coletivo Cenaandreense marcou o ritual do transformar a larva em phoenix em lava. Conquistando espaço onde apenas as fenocópias das covers atuavam, bandas da cidade colocavam suas armas em cada esquina empoeirada. Errantes forasteiros compatriotas, desbravando com os próprios punhos as mordaças.
O resultado floresceu em cada gota de conhaque nos copos e as Krias de Kafka em 2011 fizeram mais shows do que em toda sua carreira, apenas nesse perÃodo.
Novas bandas surgiram e continuarão a nascer por entre a quÃmica mórbida de moedas criadas em nome do corporativismo polÃtico barato, dos novos mecenas e seus eixos oxidados. Os desenganados enfim catapultaram camadas cardÃacas na direção da evolução.
Mas ainda era pouco.
Era preciso uma canção.
Como todo cogumelo floresce por entre a merda enraizada nas dobras da sola de um all star velho que clama o asfalto, O Amor é Fudido ejaculou-se através dos basÃdios de Roberto e Erasmo.
Quando o vocalista Mateus Novaes auscultou canções como Detalhes e Como é Grande o Meu Amor Por Você, pensou nos destroços de relacionamentos feitos por falta de opção. O micélio primário então formado pelo ar nervoso da revolta e a leveza cálida das claves, moldou-se nos acordes da canção. Com a base pronta, André Linardi, Lucas Campos, Héctor Alves e Otto Coelho (as duas guitarras, o baixo e a bateria da banda respectivamente) moldaram todas as simetrias e os vocais de Mateus completaram o quadro.
Mas ainda faltava o gole do santo, a redenção divina trôpega e mambembe para que tudo fosse alquimia. Para que a germinação do segundo micélio pudesse oferecer a porção germinativa perfeita.
Fecha-se a cortina, sobe o silêncio que completa o ar como se fosse o sangue revolto do Hotel Overlook.
Durante um ano, o diretor Jorge Pezzolo trabalhou com a canção da banda na trilha sonora de seu curta metragem Ageusia. A história da cozinheira Glória que após uma traição perde completamente o paladar, era a linha inicial para que o clip das Krias fosse produzido. Discutiram sobre como o amor pode ser fudido ou se essa condição é para o bem ou para o mal.
A resposta não poderia ser mais complexa. Perigosamente leva a mente de Jorge pelos arrebaldes de uma folha do story board em branco. Um sopro quase xamânico de Lars Von Trier e seu Dançando no Escuro, mostrou que o caminho seria a fusão entre o acordar das memórias espatifadas de Glória e as imagens da banda.
“me quedo sola, inerte
saludando un poco mas a la muerte“.
Esse choque do acordar de uma morte sentimental é a catarse entre o clipe e a canção. Um fundo em assepsia entrega a alma do vÃdeo à poesia da música.
Palavras que Jorge Pezzolo fez questão de respeitar.
Memórias de uma ageusia traumática, os acordes calmos e a métrica nervosa das rimas explodem por entre um refrão em forma de oração umbandista de cisão. Um clamor pela vida que se desfigura através do cotidiano, mas que como toda boa palavra cantada deixa em aberto as respostas. Tudo pode ser uma grande tristeza, como pode ser de alegria descomunal.
Nas palavras de Jorge:
“A idéia é que tudo ecloda em um alto e bom “o amor é fudido, meu bem” e que cada espectador, com sua própria leitura da vida e do amor, complete esse fudido como bom, ruim ou as duas coisas ao mesmo tempo“.
Formou-se assim o carpóforo completo da primeira premiere video clÃptica da Revista Nego Dito. Produzido pela Arua Filmes e com direção de Jorge Pezzolo.
As Krias de Kafka começam as gravações do novo disco no ano que vem.
Mateus, capÃtulo 1, versÃculo 1:
“Se 2012 não acabar com a gente, a gente acaba com ele, segura!“.
Assista a estreia de O Amor é Fudido abaixo e faça o download do EP Sessões desenganadas aqui.
I Por Fabio Navarro e Amanda França I Fotos: Jorge Pezzolo I







