Por Marcos Lauro | Fotos por Eduardo Gabriel |

Rogério Skylab morreu, não vive mais entre nós. Com o lançamento de Skylab X, ele encerra a sua sequência de discos. É um serial killer de si próprio: se matou de forma parcelada, em 10 vezes. O que vimos no Apê 80 no sábado, 11 de junho, foi um funeral de um morto cantante.
Fizemos 10 perguntas para ele a fim de entender como é estar morto. Veja aí se você compreende esse mistério.
Eis o mistério de Rogério Skylab:
Skylab X. E agora?
Agora é fazer muito shows. Cadáver também canta, escreve e compõe. Eu tenho uma música que diz isso: OFICIAL DE JUSTIÇA: “Debaixo da terra eu não compreendia, eu queria morrer e não conseguia”. Ou seja: vou continuar por aí, cambaleando, meio morto meio vivo. Totalmente ZUMBI. Mas a minha condição de cadáver ninguém tira.
Muita gente te conhece por causa do programa do Jô Soares. Nos shows, dá pra perceber qual é esse público e se entende sua obra?
Olha, a gente vive tempos de internet. E eu sou filho dela. Quer dizer: um filho meio bastardo. Porque me formei mesmo foi com a televisão e não fiquei burro demais, ao contrário do que pregam os Titãs. Quando caiu a lei de que jornalista precisava ser formado em Comunicação, eu fiquei feliz. Hoje em dia posso te dizer que a Internet produz coisas muito mais interessantes que a nossa imprensa escrita. Só que produz em profusão: tem muita merda e muita obra prima, tudo junto misturado. Cabe a você separar o joio do trigo. A Internet é pulsante e a nossa imprensa escrita, uma múmia paralítica. Ora, esse público, que me viu no Jô e vai ao meu show, é comum, não tem sebo. E eu escrevo pra analfabeto.
Seu som não é engraçado. E mesmo assim, as pessoas riem (um riso nervoso, tenso, mas riso) quando ouvem uma música sua. Saberia explicar esse “fenômeno”?
Sabe, a gente vive aprendendo. Foi no Apê 80 que eu descobri uma coisa. As pessoas estavam muito próximas, um palmo diante de mim. E tinha aquelas mulheres todas. De repente, eu falava uma frase perniciosa e olhava pra uma delas. Aquilo ficou lindo. Elas riam porque eu falava pra elas a um palmo de mim. A frase explodia na cara delas, como se fosse uma porra que saísse como um jato da minha pica e escorresse pelo rosto delas. Quando vinha a frase, eu mirava uma delas e ejetava. Minha mulher, perspicaz como nunca, percebeu e ficou puta. Com toda razão. Aquilo era muito sexual. Só aí me dei conta o quanto meu trabalho tem de perversão.
Você já fez música usando a frase de um crítico musical sobre o seu trabalho. Qual foi a pior bobagem que já escreveram sobre você?
Ah vivem escrevendo bobagem. Não saberia te enumerar.
Eu já vi desavisados saindo no meio dos seus shows. Você vê isso ou está imerso na apresentação? Como encara esses “abandonos”?
Esses abandonos são lindos. Eu também já abandonei muitos filmes. Poderia-se fazer um documentário, descrevendo esses abandonos. Um dia cantando uma música “Ele teve derrame”, foi embora uma família inteira (tinha casos de derrame na família). Eu, por exemplo, tenho casos de “câncer” na minha. Minha irmã Silvia Maria, que me inspirou a fazer a música “Acorda Siva Maria”, morreu de câncer no fígado. E, no entanto, eu falo de câncer pra caramba nas minhas músicas. Imagine se eu vier a morrer de câncer no cu.
E o Fluminense?
Uma paixão. É maior que a Seleção Brasileira, é maior que a minha mãe, maior que o meu pai. Nelson Rodrigues é fichinha perto de mim.
Afinal, como é a vida de um músico independente no Brasil, este ser tão desconhecido?
Calma lá. Você falando assim parece que estamos no século passado, na década de 70. Não tem nada mais conhecido hoje em dia do que o músico independente. Aliás, essa expressão é inadequada hoje em dia. Todos nós somos independentes e fudidos. Desapareceram os ícones. Os anônimos da internet proliferam. Eu tenho pena das nossas divas: Bethânia, Gal, Caetano, Roberto Carlos… Eu cheguei a entrevistar Clóvis Bornay no seu apê na Prado Júnior: está no SKYLAB VI. Sou um apaixonado pelos decadentes. Porque eles encarnam o desaparecimento do ícone: fica só aquela casca apodrecendo. Foi uma das coisas mais lindas que me aconteceram: eu estava sozinho com o gravador em punho, entrevistando Clóvis Bornay. Meses depois ele morreu. Decadência absoluta. Queria fazer um clipe com a cantora Rosana – “Uma deusa…”: cheia de plástica e fudida.
Concorda com o título “maldito”?
Não. Porque é uma expressão publicitária. Usá-la é fazer de Sergio Sampaio, Macalé, Mautner… mais um produto. E eles se caracterizam por serem singular.
E que tal a Nova Música Brasileira?
Tulipa Ruiz? Aquele viadinho que imita mal o Nick Cave? Tiê? Curumim? Que mais? Guizado? Studio SP? Que mais? O filho do Caetano? O Kassin? O +3? Que mais? O Arnaldo Antunes e o Caetano fazendo contorcionismo pra fazerem parte da nova cena? Que mais? Cérebro Eletrônico, Móveis, “Do Amor”? Camelo???? Caralho !!!! E o Rômulo, coitado, fazendo pirueta pra justificar isso?
Hà algum “novo Skylab” por aí para ouvirmos, um artista que siga seu estilo? Ou quando você fechar a tampa não teremos mais esse tipo de som?
Você não vai ter novo Sergio Sampaio, nem novo Damião Experiença, nem novo Macalé, nem novo Arnaldo Batista, nem novo Tom Zé.







Ewerton
Um gênio!!!
Parabéns pela entrevista!
A parte da entrevista do Clóvis Bornay está na música “eu não tenho eu”, no Skylab VI… a entrevista é muito interessante e engraçada, ele relata que um cara na década de 50 fez uma macumba pra ele em um festival e o cara se deu mal na apresentação, começou a tremer e ter dificuldades pra caminhar… então ele acabou ajudando o cara e o cara se desculpou pela macumba feita!