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Artículos — 12 junho 2011
Artículos | O gosto amargo doce de um velório…

Por Fabio Navarro, do Gangrena Diário | Foto por Séfora Rios

Rogério Skylab envelheceu.

As marcas em suas mãos contracenam uma sinfonia de passagem em desespero pelo seu rosto. São rastros que todos teremos, mas por algum motivo no cantor elas parecem cavar sulcos tão profundos, que por muitas vezes fica difícil diferenciar as marcas do tempo na totalidade da carapaça corpórea.

Mas ele parece não se importar com isso.

Na verdade, Skylab parece não se importar com nada. Caminhando por entre as pessoas no espaço secreto da cidade de São Paulo, ele tem mais semelhança com um kamikase do que monge. Dotado de uma missão que além de precisa, era inevitável desde o começo.

O encerramento de uma parte de sua carreira, iniciada em 1999 com o lançamento do disco Skylab. Na verdade a palavra encerramento não seria a mais apropriada, e sim morte. Uma das mais anunciadas dentro do cancioneiro popular.

Rogério, fluminense de coração compulsivo, que compõe em desespero de horas dentro da madrugada, não apenas é um funcionário de banco com outras vontades.

O músico, poeta, cronista e contista não é um armador hipster barato, tão pouco um daqueles baluartes da música popular que usam a estranheza com erudição.

E sua missão nunca foi das mais fáceis. Mesmo com todo o apoio recebido durante a carreira no programa de Jô Soares (o que na minha opinião é quase a mesma coisa que Letterman vazia com Harvey Pekar), as pessoas ainda o viam como um cara que escrevia músicas engraçadas. Mesmo quando as apresentações eram de tamanha intensidade que não havia espaço para que o ar fosse cortado.

A mídia de maneira geral, sempre condescendente, achava melhor taxar sua obra como trash. A mesma mídia que ontem, no Apê80, procurava uma matéria sensacionalista, mais uma vez perdeu a chance de ver uma das melhores catarses de alma em um palco.

A Folha, falha mais uma vez.

Ele não é alguém buscando os holofotes, aliás, em várias vezes morreu para eles. Atestados de óbitos postados em seu blog e as encenações de sua morte nos palcos, são apenas algumas provas vivas de que ele não está aqui para ser mais um dos salvadores de nada.

Inadvertidamente, Skylab irá salvar sua alma de um limbo atual, com uma maneira tão ímpar, ficando impossível não sentir nada.

Na verdade, de acordo com o próprio, quem fará isso não é seu corpo.

Mas sim sua sombra.

O que se viu nessa madrugada gélida cadaveriana, foi algo que apenas uma sombra não seria capaz de fazer. Suor escorrendo por entre os fios em sépia da cabeça de Rogério, a mão estendida e cada palavra das canções dilaceradas em partes, que atingiam em cheio quem estivesse à sua frente.

A questão nem é falar sobre o set list impecável que o cantor destilou durante o show. luminações da lua por entre decapitações, câncer do cú em cirurgias produzidas com amor e uma moto serra. O poema sobre o sol e as mãos elevadas em transe. Soro positivos e bactérias. O apocalipse dos modismos em cada nota, em cada canção.

Mas o músico tinha uma última missão: acabar de vez com a carreira de Rogério Skylab. Assim o fez, de maneira que não deixou ninguém impassível. Rosto de menina na primeira fila que depois de algumas risadas iniciais, transformou seu semblante em funeral. Um violão e uma guitarra, mais nada seria necessário para que a celebração do fim fosse completa. E em cada canção, cada sílaba era recitada de maneira visceral.

Desde os primeiros minutos estava claro que a intensidade do show seria tão latente quanto o estilhaçar de nervos expostos. Não havia espaço para suspiros, e por muitas vezes, as pessoas eram arrancadas de sua zona de modernismo de maneira tão violenta que as palmas eram nervosas. Nota após nota, a catarse de Rogério, seu suor e a voracidade de sua partida eram cada vez maiores. Inicialmente tímido, aos poucos a sombra tomava conta do palco e preenchia cada ventrículo daquele apartamento. Uma aura de despedida, risos esparsos e uma hipnose que transcendeu qualquer sensacionalismo.

Skylab estava ali, dilacerando suas palavras com a mesma força que seu corpo sentia epilépticamente cada acorde. Uma platéia que tentava acompanhar o cantor nas letras, mas a densidade do ar não permitia que a farínge projetasse a voz. Era um soco dentro de seu estômago e enquanto o show encaminhava-se para seu final, todos já sabiam que Rogério iria depositar a pá de cal derradeira.

E isso foi feito com força de fusão atômica.

A canção O Coveiro, veio depois de uma coleção de hinos como Moto Serra, Naquela Noite e Tudo Me Faz Bem. Apesar do pedido, o lado B Fátima Bernardes Experiência não veio.

Não foi preciso.

A letra que clama para que o trabalhador de cemitério ensinasse a maestria de uma cova profunda, para que o passado fosse enterrado foi a pá.

Pesada, doída, sentida em cada sinapse e em cada respiração ofegante que levava ao fim. O mundo congela e de repente não existem mais risos. Como se a população romana olhasse um Jesus em látex auto flagelando-se. O gosto de sangue e carne cinza espalha-se por entre as narinas cobertas de ar frio. Não há espaço para mais nada, apenas o fim.

A criador mata a cria faríngecamente. Um punho exposto no ar e uma alma em lava que se despedaça. O fim, mais nada.

Não existe bis ou volta.

Pela escada do Apê80 desce a sombra de uma alma que sublimou-se no palco. Uma força da natureza que não pode ser explicada com chavões ou categorizada pelas linhas teóricas da MPB.

Precisamos de um cigarro, uma cerveja. Algo que faça descer pela garganta o gosto amargo de um cadáver velado da maneira mais visceral possível. Foi tristeza daquelas que fazem seu corpo sumir por entre os passantes.

Foi a beleza da morte em sua forma mais límpida.

Descanse em paz Rogério Skylab.

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NegoDito

(6) Comentários de Leitores

  1. Credo. Se eu tivesse ido haveriam dois rostos de menina mudando o semblante.
    Aliás, foi o que aconteceu lendo esse texto.
    Será que eu digo parabéns?
    Isso pode quebrar o clima da catarse texto-show…



  2. Firulas, muitas firulas…

  3. No sábado ele tocou Fátima Bernardes, mas não tocou moto-serra.
    uma pena que não conseguir ver ao vivo “O primeiro tapa é meu”
    espero ver um dia ainda.

    Rogério Skylab rules!

  4. Análise maravilhosa, sem igual. Cheguei aqui pelo link do Godard City (blog do Rogerio). Parabéns!

  5. Uma apresentação imperdível que eu acabei perdendo, acompanhei Rogério a todas as vindas ao CCSP, infelizmente no Apê80 não tive a oportunidade, mas esse artículo não poderia expressar melhor a morte do Skylab,,, Análise perfeita.

  6. Sou fã do Rogério há uns 2 anos. Mudou meu jeito de ver a música. Hoje me vejo de forma diferente, acho legal ser eu!! isso não tem preço! acho muito louco minhas loucuras!! isso por causa da influencia do Skylab!
    ser doidão, diferente, excluído, anti discursista, esquisisto é da hora!!
    valeu Rogério

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